Normalmente, conhecemos um livro quando ele já está pronto.

Capa definida.

Texto revisado.

Páginas diagramadas.

Título no lugar certo.

Tudo parece ter seguido um caminho bastante organizado até chegar ali.

Mas, pelo menos por aqui, não funciona exatamente assim.

Hoje, Era uma vez na América do Sul ainda está em construção.

E isso significa que vocês estão vendo uma coisa que normalmente fica escondida:

um livro antes de ele saber exatamente qual será sua forma final.

Um manuscrito não nasce pronto

Existem histórias selecionadas.

Pesquisas em andamento.

Textos que parecem funcionar.

Outros que pedem mais atenção.

Trechos que precisam ser reescritos.

Perguntas culturais que precisam ser verificadas.

E decisões que ainda não foram tomadas.

A Biblioteca Editorial do projeto classifica Era uma vez na América do Sul como manuscrito em produção, com estrutura e conteúdo ainda provisórios.

Isso é importante porque “estar escrevendo um livro” não significa que tudo o que está no arquivo hoje estará na versão publicada amanhã.

Pesquisar também muda a escrita

Quando comecei a trabalhar com histórias tradicionais de diferentes lugares, uma coisa ficou cada vez mais clara:

encontrar uma boa história é apenas o começo.

Depois vêm outras perguntas.

Onde essa narrativa é registrada?

Existem outras versões?

O país pelo qual estou organizando o livro corresponde à origem cultural da história?

Essa adaptação preserva o que realmente importa?

Algum detalhe que parecia simples exige mais pesquisa?

Às vezes, uma descoberta confirma o caminho.

Em outras, obriga a voltar algumas páginas.

E isso faz parte do processo.

Adaptar não é apenas encurtar

Uma história destinada a crianças pode precisar de outra linguagem.

Alguns acontecimentos podem ser condensados.

Certas passagens podem precisar de contexto.

Mas adaptar também significa decidir o que não deve ser alterado.

A identidade editorial do projeto trabalha com um princípio simples:

simplificar sem infantilizar e adaptar sem apagar a essência.

Esse cuidado faz parte do trabalho com a coleção Contos do Mundo.

Existem erros no caminho?

Sim.

E talvez isso seja uma das partes mais importantes de mostrar os bastidores.

Um manuscrito pode carregar repetições.

Ideias antigas que já não fazem sentido.

Trechos copiados de uma estrutura anterior.

Referências que precisam ser confirmadas.

Escolhas que pareciam boas no primeiro momento e deixam de parecer depois.

O processo editorial existe justamente porque escrever não é apenas acrescentar páginas.

Também é retirar.

Questionar.

Comparar.

Pesquisar de novo.

E, às vezes, admitir:

“isso ainda não está pronto.”

Então por que mostrar agora?

Porque existe algo interessante em acompanhar uma história antes de ela virar objeto acabado.

Você consegue ver as decisões acontecendo.

As perguntas aparecendo.

Os caminhos mudando.

E talvez isso também ajude a desfazer uma ideia que eu mesmo tive durante muito tempo:

a de que um projeto só merece ser mostrado quando parece perfeito.

Meu primeiro livro nasceu depois de muitos projetos que ficaram pelo caminho, em diferentes estágios. Aurora da Infância registra essa trajetória de muitos começos antes de um final finalmente chegar.

Hoje, prefiro pensar que parte do trabalho de escrever é aceitar que a descoberta também acontece durante a escrita.

O que vem agora?

Ainda há pesquisa.

Revisão.

Seleção.

Reescrita.

E decisões editoriais pela frente.

Por isso, qualquer história, estrutura ou detalhe de Era uma vez na América do Sul mostrado durante esse processo deve ser entendido pelo que ele é:

um pedaço de um livro em construção.

Não uma promessa de versão final.

Convite final

Da próxima vez que eu mostrar alguma etapa desse projeto por aqui, talvez ela já tenha mudado.

E isso provavelmente será um bom sinal.

Porque um livro não nasce quando tudo está decidido.

Ele nasce enquanto vamos descobrindo o que realmente precisa permanecer.